segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Meying

Meiyings são cheirosas, meigas e  bonitas
Entre poucas outras já achadas;
Sabem que têm cheiro de rosas
Mas não se permitem ser cheiradas.

Essa flor veio de uma semente sem sol e sem amor,
De outra flor murcha que não via o amanhecer
Naquela forma tão sombria este era seu temor
Se por um dia poderia florescer.

Ao morrer tal flor soturna lançou sua semente
O vento se encarregou de seu papel solene;
Em um belo jardim caiu e descansou,
Entre várias outras, Meiying se arraigou.

Ainda que não saiba do seu triste passado
Meying cresceu vendo sol o iluminado.
Os que olham sua beleza não conseguiam imaginar
Que de tal sofrimento uma graça iria germinar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Sr. Mustafá

Caro Mourice,

   Leia esta breve descrição:

   “Sr. Mustafá era um homem nos seus 50 anos, não ligava mais para si mesmo, ainda que estivesse entre os 100 homens mais ricos de sua nação. Olhando ele para o próprio rosto através do espelho, percebia quantas coisas o tempo lhe havia tomado. Saiu do banheiro e vestiu suas roupas, precisava trabalhar. O Sr. Mustafá não enfrentava o trânsito, seu local de trabalho estava estrategicamente montado em uma das acomodações de sua mansão.”
 
   Este é um fato que preciso destacar, pois o Sr. Mustafá era um homem triste, sozinho. Em seu escritório, na sua mansão, não tinha oportunidade de conversar, pois seus funcionários estavam na sede da sua empresa na cidade, havia mais ninguém em seu pequeno espaço de trabalho além de si mesmo. Acredito que este fato agravava muito mais sua tristeza, ainda assim, nunca tive coragem de confrontar qualquer uma de suas decisões. Confesso que eu mesmo ficaria muito feliz vendo Mustafá brigando no trânsito por qualquer uma dessas bobagens que os homens gostam de brigar, ao menos ele estaria interagindo com outro ser humano. Bem, vou expor os fatos:
       
    Sr. Mustafá era um bem-sucedido homem de negócios. Vinte anos atrás ele era casado e tinha uma bela filha, o nome de sua esposa era Jade, e sua filha era chamada Tâmisa. Não pretendo me prolongar nessas lembranças, a minha pena treme e minha tinta se gasta de tanta força que involuntariamente faço sobre meus dedos. Espero que entenda meus sentimentos, prezado Mourice, sou apenas um redator.

    Sobre Jade, pela cultura da sociedade em que vivia, não me era próprio ter muito mais contato para com ela do que o necessário. Falávamos brevemente sobre a casa e os papéis de trabalho deixados pelo seu marido. Algumas vezes, lhe perguntava como estava e outras poucas coisas mais, somente isso durante aqueles 10 anos. Ainda assim, a maneira com que ela tratava outros e também a mim, criava em todos uma ótima impressão sobre ela. O Sr. Mustafá era realmente alguém que, para mim, mais que um chefe, era um amigo. Algum dia desses, que foram muitos, algo trágico aconteceu tão repentinamente como todas as misérias dessa vida.

    Quão bom era o Sr. Mustafá, e esta fora a sua desgraça. Sim, por confiar em tantos e permitir que dele estivessem tão próximos. A humanidade reclama a falta de bons homens, por isso é triste ver essas mesmas pessoas, que reclamam bons atos, fazendo deste mundo um lugar pior logo que lhes é apresentada uma oportunidade para ganhar às custas de outros. Enfim, em um momento oportuno um “grande amigo” do bom Mustafá, tendo acesso a todas as informações privadas da empresa, recebeu uma gananciosa proposta de um grupo concorrente. O plano malicioso não estava ligado a qualquer tipo de roubo; porém, algo pior. Para incriminar o Sr. Mustafá, e tirá-lo da concorrência, esses criminosos usaram dessas informações contra ele, tirando de onde faltava e adicionando o que não tinha. Isso o forçou a enfrentar muitas vezes tribunais, além de ter sido muito açoitado pela mídia local. Essa foi uma época de verdadeiro sufoco para a família Mustafá. Não havia paz em sua casa.

   Em conclusão, o Sr. Mustafá sentiu-se pressionado a enviar sua família de avião para um país pequeno e pouco conhecido. Em um acidente, este avião se perdeu, até hoje não conseguimos ter boas ou más notícias desse fato. Mustafá conseguiu manter as suas riquezas materiais e melhorou um pouco a sua imagem diante do povo, mas perdeu seu espírito. Confesso que todos estes fatos pareceram muito estranhos para mim, e até hoje tenho comigo que há mais coisas envolvidas entre tantas desgraças de uma só vez, mas não convém a mim filosofar sobre tais razões.

   A respeito da citação qual iniciei este relato, retirei de um jornal, acredito que este jornalista tinha espírito de escritor de romance policial. Este descrevia o dia em que o Sr. Mustafá apareceu morto em seu escritório. Alguns acreditam que ele cometeu suicídio, apesar de algumas evidências não indicarem tal hipótese, qual descarto por completo.

   Maurice, como bem sabes, não sou a melhor pessoa para descrever estes relatos, nesta época não trabalhava mais para ele e morava já em outra província. Ainda não sei o motivo de teres me pedido este relato mas, já que me pedes, aqui está por escrito. Então, no dia em que aí for, não me peças para falar por repetidas vezes, como já fazia quando criança. Lembro que não se tinha por descanso, toda noite frente à lareira até que eu contasse também tudo que sabia das velhas aventuras marítimas de seu pai, que Deus o tenha.

    Maurice, meu caro amigo. As pessoas acabam com o mundo porque apenas se importam quando a miséria as atinge. Não digo apenas das pessoas comuns, mas dos homens de negócios principalmente. Porém, muitos entre nós clamam por justiça mas são capazes de fazer coisas horrendas em troca de grandes recompensas. Muitos fingem lutar por uma boa causa apenas para camuflar suas verdadeiras intenções e conquistar seguidores. Não te tornes assim. Lembre-se que teus atos afetam grandemente a outros em tua volta, e não apenas a ti mesmo.

   Peço que dês um abraço em minha tia Cloe, diz a ela que não a esqueço nenhum dia em minhas boas lembranças. Dos seus cuidados, me acolhendo e criando em sua casa, como filho junto aos seus.

Com todo o carinho,
Aquele que te escreve.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Lealdade

   Não confio nos amargurados, a excessiva tristeza deles faz com que o ódio facilmente se aloje em seus corações; muito menos naqueles em que de suas faces não despenca o sorriso, pois esta é a gaze do ardiloso que oculta seus planos.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Narciso... Dorian Gray... Ou seja lá quem se adeque melhor!

    De tempos em tempos eu fico meio frustrado com meu estado físico. Logicamente, poderia fazer exercícios mas, assim como todo pseudo escritor/poeta, preferi fazer uns versos. Nada sofisticado, sem preocupação com métrica; tudo muito espontâneo, fui falando e as palavras foram saindo para fazer graça do meu estado - uma experiência que achei bacana, e muito divertida - ao menos para mim.

Leandro,
você precisa manter seu peso,
Pois senão será obeso,
Em uma flor de sedução.

Leandro,
Sua barriga está crescendo,
Está te envolvendo
Em um chama de paixão.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Fim de Ano


 Carne, osso e pele, era isso e nada mais. Carne, osso e pele era o que continha no prato do desafortunado pequeno homem. Pele, osso e carne comia apenas, sentia-se satisfeito, mesmo sendo sobras deixadas por alguém.

    E assim era para aquele pequeno homem. Notas como o chamo? Sim, creio que notastes. Não o chamo de garoto, muito menos de rapazola, ou talvez, moleque, poderia assim dizer. “Pequeno Homem” é um termo muito bem adequado às suas circunstâncias, não apenas pelas sua condição de vida mas, principalmente, pelo seu estado mental, que o transformava em um homem, mesmo que pequeno. Ali estava ele, naquela noite de festejos; festividades apenas dentro das casas, devo destacar. Pois, as ruas punham-se vazias e estradas desertas, mas as casas, ah, as casas! Sim, estas estavam cheias.

   Final do ano de 1908, “final” digo para simplificar, próximo do final estava. Creio que sobre a ocasião eu tenha dado pistas o suficiente para que o leitor, em suas conjecturas, entendesse do que se tratava. Pois, diga-se então, véspera do natal estava montada a situação. Enquanto todos deleitavam-se de suas bem quistas comilanças, digo, nem todos. Lembrai-vos que havia "entre" eles, mesmo que distante e em aposentos exteriores, o pequeno homem. O tal que acabava de se deliciar das sobras cruas, restos de preparo da ceia. Pois bem, estava o pequeno homem saciado em seu ventre, mas não em seu íntimo. Do lixeiro que havia tirado o seu meio de sobrevivência, sem quaisquer dúvidas, poderia tirar ainda mais e estocar para os dias piores que viriam. Contudo, isso não fez, pois a saciedade o deixou esquecer, apenas sentia seu âmago, que estava vazio e pedia algo para ser preenchido. Tal necessidade o levou a ficar horas, por toda noite e madrugada virada, a olhar aquela casa de janelas baixas e cortinas exuberantes. Mas, o que tinha de tão belo por trás daquela janela só poderia ser entendido por aquele pequeno, pois qualquer um olharia e veria algo cotidiano. Qualquer um olharia, enxergaria, passaria e nada mais. Aquele homem pequeno, toda via, sentia-se lotado de encanto, encanto que somente aquela visão poderia para ele proporcionar. E tal visão, vos descrevo agora.

Havia em uma mesa, nada modesta, um homem robusto, o qual muito alegre apresentava-se, sorridente, e sempre tão afetuoso para com três outras mulheres também lá sentadas, uma ainda por sua adolescência, outra criança, já a próxima, pela idade era óbvio ser a sua senhora. Mais duas ou três pessoas lá se encontravam, contudo, não aparentavam ser de tanta importância quanto as outras.

   O pequeno sentia-se preenchido por apenas observar o que tanto almejava, talvez não a família, pois isso já tinha. Provavelmente, também não a comida, pois achava fácil no lixo como assim vimos. Todavia, gostaria de sentir o que sentiam aquelas três moças que aparentavam ser tão amadas. Por qual motivo, por qual razão tanto alegravam-se? Seria esse o sentimento resultante de um afago, um toque carinhoso das mãos sobre pele macia? Que pena, aquele pequeno homem talvez nunca iria saber a resposta, afinal de contas, nunca teve uma pele macia, um mal que a vida nas ruas lhe trouxera.

   Eram duas da matina, não havia mais o que olhar, aquilo era... aquilo era... Procuro palavras para descrever o que para ele poderia significar que para nós fosse compreensível. Creio que fosse como se estivésseis com a pessoa amada e, no ápice da conversa amorosa, aquela que lhe conduz a um grande prazer de estar ao seu lado levanta-se de brusca forma e diz: “Tenho que me retirar, pois é tarde, e outra noite como essa não sabemos se novamente haverá." Foi esse o sentimento, se não pior, o que sentiu o pequeno homem. O sono também o abatia, e por isso partiu. Porém, não para muito longe, até um beco, um beco feio, ainda assim um beco de bairro nobre, que diferenciava-se muito de todos os outros becos, pelo menos para o pequeno. 

   Sua cama de jornal já estava feita, deixara assim desde a noite antepassada e ninguém mexera, não havia outros para disputar o lugar. É, talvez tenhamos que com o pequeno homem concordar, aquele beco era diferente de todos os outros becos. Deitou-se ali e pensou um pouco antes de dormir, pensou no que vira através da janela, através das cortinas. Aquele pobre rapaz que, com a felicidade dos outros tanto sonhava, mal podia medir que aquele sentimento esporádico trazido por festas em certos dias do ano não era bem a felicidade que fantasiava, mas sim, o estado de sobreviver com pouco e ainda sonhar. Dormiu tranquilamente, provavelmente sonhando com a felicidade que almejava, enquanto outros das suas casas não dormiam, admirando pelas janelas a tranquilidade da lua.