Carne, osso e pele, era isso e nada mais. Carne, osso e pele era o que continha no prato do desafortunado pequeno homem. Pele, osso e carne comia apenas, sentia-se satisfeito, mesmo sendo sobras deixadas por alguém.
E assim era para aquele pequeno homem. Notas como o chamo? Sim, creio que notastes. Não o chamo de garoto, muito menos de rapazola, ou talvez, moleque, poderia assim dizer. “Pequeno Homem” é um termo muito bem adequado às suas circunstâncias, não apenas pelas sua condição de vida mas, principalmente, pelo seu estado mental, que o transformava em um homem, mesmo que pequeno. Ali estava ele, naquela noite de festejos; festividades apenas dentro das casas, devo destacar. Pois, as ruas punham-se vazias e estradas desertas, mas as casas, ah, as casas! Sim, estas estavam cheias.
Final do ano de 1908, “final” digo para simplificar, próximo do final estava. Creio que sobre a ocasião eu tenha dado pistas o suficiente para que o leitor, em suas conjecturas, entendesse do que se tratava. Pois, diga-se então, véspera do natal estava montada a situação. Enquanto todos deleitavam-se de suas bem quistas comilanças, digo, nem todos. Lembrai-vos que havia "entre" eles, mesmo que distante e em aposentos exteriores, o pequeno homem. O tal que acabava de se deliciar das sobras cruas, restos de preparo da ceia. Pois bem, estava o pequeno homem saciado em seu ventre, mas não em seu íntimo. Do lixeiro que havia tirado o seu meio de sobrevivência, sem quaisquer dúvidas, poderia tirar ainda mais e estocar para os dias piores que viriam. Contudo, isso não fez, pois a saciedade o deixou esquecer, apenas sentia seu âmago, que estava vazio e pedia algo para ser preenchido. Tal necessidade o levou a ficar horas, por toda noite e madrugada virada, a olhar aquela casa de janelas baixas e cortinas exuberantes. Mas, o que tinha de tão belo por trás daquela janela só poderia ser entendido por aquele pequeno, pois qualquer um olharia e veria algo cotidiano. Qualquer um olharia, enxergaria, passaria e nada mais. Aquele homem pequeno, toda via, sentia-se lotado de encanto, encanto que somente aquela visão poderia para ele proporcionar. E tal visão, vos descrevo agora.
Havia em uma mesa, nada modesta, um homem robusto, o qual muito alegre apresentava-se, sorridente, e sempre tão afetuoso para com três outras mulheres também lá sentadas, uma ainda por sua adolescência, outra criança, já a próxima, pela idade era óbvio ser a sua senhora. Mais duas ou três pessoas lá se encontravam, contudo, não aparentavam ser de tanta importância quanto as outras.
O pequeno sentia-se preenchido por apenas observar o que tanto almejava, talvez não a família, pois isso já tinha. Provavelmente, também não a comida, pois achava fácil no lixo como assim vimos. Todavia, gostaria de sentir o que sentiam aquelas três moças que aparentavam ser tão amadas. Por qual motivo, por qual razão tanto alegravam-se? Seria esse o sentimento resultante de um afago, um toque carinhoso das mãos sobre pele macia? Que pena, aquele pequeno homem talvez nunca iria saber a resposta, afinal de contas, nunca teve uma pele macia, um mal que a vida nas ruas lhe trouxera.
Eram duas da matina, não havia mais o que olhar, aquilo era... aquilo era... Procuro palavras para descrever o que para ele poderia significar que para nós fosse compreensível. Creio que fosse como se estivésseis com a pessoa amada e, no ápice da conversa amorosa, aquela que lhe conduz a um grande prazer de estar ao seu lado levanta-se de brusca forma e diz: “Tenho que me retirar, pois é tarde, e outra noite como essa não sabemos se novamente haverá." Foi esse o sentimento, se não pior, o que sentiu o pequeno homem. O sono também o abatia, e por isso partiu. Porém, não para muito longe, até um beco, um beco feio, ainda assim um beco de bairro nobre, que diferenciava-se muito de todos os outros becos, pelo menos para o pequeno.
Sua cama de jornal já estava feita, deixara assim desde a noite antepassada e ninguém mexera, não havia outros para disputar o lugar. É, talvez tenhamos que com o pequeno homem concordar, aquele beco era diferente de todos os outros becos. Deitou-se ali e pensou um pouco antes de dormir, pensou no que vira através da janela, através das cortinas. Aquele pobre rapaz que, com a felicidade dos outros tanto sonhava, mal podia medir que aquele sentimento esporádico trazido por festas em certos dias do ano não era bem a felicidade que fantasiava, mas sim, o estado de sobreviver com pouco e ainda sonhar. Dormiu tranquilamente, provavelmente sonhando com a felicidade que almejava, enquanto outros das suas casas não dormiam, admirando pelas janelas a tranquilidade da lua.
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