Caro Mourice,
Leia esta breve descrição:
“Sr. Mustafá era um homem nos seus 50 anos, não ligava mais para si mesmo, ainda que estivesse entre os 100 homens mais ricos de sua nação. Olhando ele para o próprio rosto através do espelho, percebia quantas coisas o tempo lhe havia tomado. Saiu do banheiro e vestiu suas roupas, precisava trabalhar. O Sr. Mustafá não enfrentava o trânsito, seu local de trabalho estava estrategicamente montado em uma das acomodações de sua mansão.”
Este é um fato que preciso destacar, pois o Sr. Mustafá era um homem triste, sozinho. Em seu escritório, na sua mansão, não tinha oportunidade de conversar, pois seus funcionários estavam na sede da sua empresa na cidade, havia mais ninguém em seu pequeno espaço de trabalho além de si mesmo. Acredito que este fato agravava muito mais sua tristeza, ainda assim, nunca tive coragem de confrontar qualquer uma de suas decisões. Confesso que eu mesmo ficaria muito feliz vendo Mustafá brigando no trânsito por qualquer uma dessas bobagens que os homens gostam de brigar, ao menos ele estaria interagindo com outro ser humano. Bem, vou expor os fatos:
Sr. Mustafá era um bem-sucedido homem de negócios. Vinte anos atrás ele era casado e tinha uma bela filha, o nome de sua esposa era Jade, e sua filha era chamada Tâmisa. Não pretendo me prolongar nessas lembranças, a minha pena treme e minha tinta se gasta de tanta força que involuntariamente faço sobre meus dedos. Espero que entenda meus sentimentos, prezado Mourice, sou apenas um redator.
Sobre Jade, pela cultura da sociedade em que vivia, não me era próprio ter muito mais contato para com ela do que o necessário. Falávamos brevemente sobre a casa e os papéis de trabalho deixados pelo seu marido. Algumas vezes, lhe perguntava como estava e outras poucas coisas mais, somente isso durante aqueles 10 anos. Ainda assim, a maneira com que ela tratava outros e também a mim, criava em todos uma ótima impressão sobre ela. O Sr. Mustafá era realmente alguém que, para mim, mais que um chefe, era um amigo. Algum dia desses, que foram muitos, algo trágico aconteceu tão repentinamente como todas as misérias dessa vida.
Quão bom era o Sr. Mustafá, e esta fora a sua desgraça. Sim, por confiar em tantos e permitir que dele estivessem tão próximos. A humanidade reclama a falta de bons homens, por isso é triste ver essas mesmas pessoas, que reclamam bons atos, fazendo deste mundo um lugar pior logo que lhes é apresentada uma oportunidade para ganhar às custas de outros. Enfim, em um momento oportuno um “grande amigo” do bom Mustafá, tendo acesso a todas as informações privadas da empresa, recebeu uma gananciosa proposta de um grupo concorrente. O plano malicioso não estava ligado a qualquer tipo de roubo; porém, algo pior. Para incriminar o Sr. Mustafá, e tirá-lo da concorrência, esses criminosos usaram dessas informações contra ele, tirando de onde faltava e adicionando o que não tinha. Isso o forçou a enfrentar muitas vezes tribunais, além de ter sido muito açoitado pela mídia local. Essa foi uma época de verdadeiro sufoco para a família Mustafá. Não havia paz em sua casa.
Em conclusão, o Sr. Mustafá sentiu-se pressionado a enviar sua família de avião para um país pequeno e pouco conhecido. Em um acidente, este avião se perdeu, até hoje não conseguimos ter boas ou más notícias desse fato. Mustafá conseguiu manter as suas riquezas materiais e melhorou um pouco a sua imagem diante do povo, mas perdeu seu espírito. Confesso que todos estes fatos pareceram muito estranhos para mim, e até hoje tenho comigo que há mais coisas envolvidas entre tantas desgraças de uma só vez, mas não convém a mim filosofar sobre tais razões.
A respeito da citação qual iniciei este relato, retirei de um jornal, acredito que este jornalista tinha espírito de escritor de romance policial. Este descrevia o dia em que o Sr. Mustafá apareceu morto em seu escritório. Alguns acreditam que ele cometeu suicídio, apesar de algumas evidências não indicarem tal hipótese, qual descarto por completo.
Maurice, como bem sabes, não sou a melhor pessoa para descrever estes relatos, nesta época não trabalhava mais para ele e morava já em outra província. Ainda não sei o motivo de teres me pedido este relato mas, já que me pedes, aqui está por escrito. Então, no dia em que aí for, não me peças para falar por repetidas vezes, como já fazia quando criança. Lembro que não se tinha por descanso, toda noite frente à lareira até que eu contasse também tudo que sabia das velhas aventuras marítimas de seu pai, que Deus o tenha.
Maurice, meu caro amigo. As pessoas acabam com o mundo porque apenas se importam quando a miséria as atinge. Não digo apenas das pessoas comuns, mas dos homens de negócios principalmente. Porém, muitos entre nós clamam por justiça mas são capazes de fazer coisas horrendas em troca de grandes recompensas. Muitos fingem lutar por uma boa causa apenas para camuflar suas verdadeiras intenções e conquistar seguidores. Não te tornes assim. Lembre-se que teus atos afetam grandemente a outros em tua volta, e não apenas a ti mesmo.
Peço que dês um abraço em minha tia Cloe, diz a ela que não a esqueço nenhum dia em minhas boas lembranças. Dos seus cuidados, me acolhendo e criando em sua casa, como filho junto aos seus.
Com todo o carinho,
Aquele que te escreve.
Nenhum comentário:
Postar um comentário